sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Odiava essa sensação. Essa dependência. Dois dias sem conversas e parecia que todas as promessas, tudo aquilo era bobagem. Como se pudesse ver o futuro, esperava a cartada final. As palavras que iriam dar um fim a tudo. Esperava-as tanto que as vezes se perguntava se não queria realmente ouví-las. Será que queria mesmo aquilo? Ou era a ilusão, o teatro que a seduzia? Por que então ficava a espreita daquelas palavras, se controlando para não encontrá-la em outras bocas? A angústia. Já havia sentido anteriormente aquela angústia e ela nunca era um bom presságio. Ridícula. Afastava tanto as pessoas para depois chorar a sua própria solidão, masoquista que era. Não tinha tanta certeza de nada, apenas que queria acabar com aquilo. Se desligar um pouco e ir por aí de qualquer jeito. A mente solta, leve, sem pensar em muita coisa. Tinha vontade de chorar. Engolia, tinha gosto amargo. Olhava pela janela, nenhum sinal, nenhuma placa que pudesse encontrar e simplesmente tomar alguma direção. Insuportável isso. Queria parar. Queria ver as palavras e dar um fim, procurar uma outra coisa, qualquer coisa. 
Mas não conseguia sequer se mexer.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Você age como adolescente

Você age como adolescente. Aquela frase, dia sem preparação nenhuma a chocou. Pensou em rebater e falar sobre a sua maturidade, sua idade, sua postura. Sou uma mulher feita. Pensou. Mas sabia que aquela frase, justo aquelas palavras, não poderiam estar mais certas. Não era uma mulher, se muito ainda era uma menina e a única maturação de sua existência era a sexual e mesmo assim sentia que andava longe disso. Suspirou. Vasculhou em sua mente momentos, histórias, questões. Percebeu que não passava de uma menina, mimada e assustada. Olhou-se no espelho, do corpo de mulher só tinha os quadris, arredondados, gordos. Faltavam-lhe seios. Coitado do meu bebê, não vai ter leite. Pensou no medo que tinha das coisas de gente grande: pagar contas, cuidar de uma casa, se casar, ter filhos. Tudo isso deixava-a aterrorizada. Responsabilidades de gente grande, ter que assumir a maturidade, ter que crescer realmente. Percebia a sua adolescência nas pequenas coisas, ao assustar-se com o estágio de vida em que se encontravam meninas da sua idade. Elas não eram mais meninas, eram mulheres. Onde então havia ficado a sua mulher? O que é ser mulher? Em sua cabeça ser mulher parecia algo estranho, proibido, carregado de significados e responsabilidades. Não queria, não via porquê. 
Queria ser sempre menina, mas nem isso poderia ser...

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Fotos antigas

Você já parou para pensar nas histórias por traz daqueles sorrisos? Daqueles corpos bonitos que ficaram feios com o tempo. Imaginar quais eram seus sonhos, seus medos e desejos e perceber o que mudou, 20, 30, 40 anos depois? O que pode ser feito? O que muda a gente tanto? Quando viver deixou de ser algo simples?
Ela era uma menina, de corpo miúdo com lindas formas, sorriso doce. Ele alto, olhar sério, um bigode cheio, cabelos pelos olhos. Peles queimadas do sol, bebês gorduchos rindo, lavar e colocar roupas no varal.
Deitada ela olhava tudo aquilo, contra a luz aqueles momentos tomavam vida.
Quando sair do quarto escuro seria realmente um ato de conforto?

domingo, 23 de novembro de 2014

As vezes ela se sentia como um desenho incompleto. Um rabisco sem forma, sem sombra, sem profundidade. Interminada. Sem olhos ou boca, só sentimento. E deitada ela se deixava absorver pela cama, pelo lençol. Se alguém entrasse ali não a notaria, pois ela, ser amorfo, já era parte do quarto. De uma forma ou de outra, pura angústia. E se escrevesse ou gritasse? Qual diferença faria afinal?

domingo, 9 de novembro de 2014

Deitou na cama. Olhou o teto, suas pernas estavam estendidas, apoiadas de forma a fazerem um ângulo de 90º com seu corpo. Alguns pedaços do seu coração estavam na sua mão direita, os outros espalhados por aí. Sentia o seu corpo flutuar, mas não da maneira gostosa. Era a maneira perdida de se flutuar, se perdendo, desaparecendo. Olhava o teto mas não via nada, apertava a mão direita. Suspirou. Não sabia muito bem o que fazer com aquela informação, não fazia sentido muita coisa aliás. Fechou os olhos e tentou ver o que não conseguia com eles abertos. Lembranças. Passavam todas correndo, se esbarrando, se misturando. Ela não conseguia captar a essência de nenhuma delas. Seu corpo ainda flutuava, se perdendo, indo embora. Era preciso ir embora afinal, deixar tudo aquilo mas ela ainda não conseguia. Qualquer coisa de louco ou masoquista a prendia. Talvez nem um, nem o outro, apenas a esperança. Mas qual esperança? Ficou se perguntando. Abriu os olhos e não encontrou muitas respostas, os pedaços ainda estavam em sua mão. Olhou seus pés, mexeu os dedos para ter certeza de que eles ainda serviam. Suspirou fundo, decidiu sentar. Olhou mais uma vez os pedaços em sua mão, se levantou e foi até a janela. Ao abrí-la viu o quarto ser invadido de sons, cores, cheiros. Entraram também lembranças pois daquela janela podia ver o letreiro vermelho e nós bem sabemos o que aquele letreiro significava. Pegou o conteúdo da sua mão e soprou. Viu os pedaços rodopiarem no ar, dançarem. Quem sabe estariam livres enfim. Sentiu um certo alívio. Dormiu para não acordar mais. Pelo menos não naquele corpo.

domingo, 26 de outubro de 2014

Letreiro vermelho


Abraçou, suspirou. Sentiu seu peito se encher de qualquer coisa que vinha evitando há tanto tempo. Lembrava da sua regra, só diga isso quando faltarem as palavras, não como um meio de conversa. Só diga isso quando seu peito se encher e então transbordar para a garganta, inundar a boca e ser impossível conter. É só então quando você deve dizer, sem medo. Acontece que quando esse momento chegou, não pôde ser consumado. Cada vez que seu peito se enchia, sua garganta transbordava e sua boca inundava era preciso engolir. E que esforço, doía tanto. Tinha vontade de chorar cada vez que isso acontecia. E aconteceram tantas vezes, e então quando acontecia ela abraçava mais, apertava. Esse abraço era interpretado como desejo, era bom porque então por alguns momentos poderia se esquecer. Mas ainda estava lá, enchendo, transbordando, inundando. Repetidamente, sem aviso, sem hora para ir embora. Pensou que iria melhorar se fossem lá fora. Mas então o vento, as mãos que se tocavam tímidas, tudo isso contribuía para a piora. Buscava fugir pois não queria estragar o que aquilo era mas toda vez que voltavam e havia o abraço e a calma e as palavras soltas, era preciso engolir. E o que inundava de forma boa acabava se transformando em lágrimas que mais uma vez precisavam ser contidas. 
Finalmente não precisou mais se conter, e não era porque finalmente poderia ter dito mas porque o tempo havia acabado. Caminharam por uma rua escura e se despediram, para cada passo que davam em direções opostas, iam olhando para trás, procurando nas feições que se afastavam um pouquinho daquilo que tinham vivido. Ao chegar em seu quarto, tudo aquilo que precisou engolir finalmente transbordou. Chorou, chorou tanto que parecia estar chorando porque alguém morrera. Era desesperador o efeito das palavras não ditas, aquelas que enchiam o peito. Chorou como se uma parte de si tivesse ido embora. Desespero.
Mas os dias passaram, e o efeito dessas palavras não ditas foi se forticando, somatizando, se transformando em procura de sensações fáceis, passageiras. Mas isso não se faz, não é? Foi quando percebeu que o inevitável acontecera. Aquele letreiro vermelho que deveria ser uma lembrança boa agora era um fantasma, perseguindo por toda a cidade, podendo ser visto da sua casa, da rua, nos seus sonhos. Quando passava perto virava o rosto. Quando olhava para o horizonte, evitava encontrá-lo. Para onde quer que fosse se não estivesse o letreiro, estaria a lembrança do abraço, da vontade de dizer, da necessidade de conter. 
Um dia, quem sabe. Aquilo poderia ser dito.

sábado, 25 de outubro de 2014

Era sempre assim. As vezes não conseguia dormir, virava, revirava, olhava o teto, o celular. A mente inquieta. Precisava escrever, mas as vezes era tudo muito rápido. As vezes a as palavras iam rápido demais, se chocavam em sua mente, se desfaziam, não dava tempo de colocá-las no papel, digitá-las, traduzí-las, montar o que precisava ser montado.
Simplesmente não dava.

Mas como assim você não...?

 - E aí, você...?
Olha para o teto. Vira de lado, suspira, olha para ele, olha para o teto. Resposta difícil. Não queria e não iria mentir, mas tampouco queria aguentar o drama. Sim senhor, o drama. Muito se fala do drama feminino, constante e por qualquer coisa. Mas poucas coisas são tão irritantes quanto o drama masculino, justo na hora em que menos se quer ouvir. Há quem insista que são as meninas que gostam de conversar logo após mas não ela. Adorava aquele silêncio, olhar o teto, aproveitar o vazio da mente. No máximo um segurar de mãos, afinal quem estava ao seu lado era um quase desconhecido. Desnecessárias eram as conversas miúdas. Não precisa fingir que se importa se o dia foi bom, sério. 
- Oi? Tá aí? - viu um rosto olhá-la. Voltou dos seus pensamentos, suspirou mais uma vez e disse:
- Não
- Como assim não?
- Não ué.
- Mas... 
Silêncio novamente. Agora do tipo constrangedor. Ai-meu-deus, ela não... Depois dos bons 5 minutos de constrangedor silêncio ela decidiu que era hora de seguir em frente. Sentou-se e olhou ao redor, procurava sua roupa e quando teve certeza de ter localizado todas as peças levantou-se, pegou cada uma e vestiu. Fazia isso sem olhar para o rapaz deitado na cama, quando percebeu que poderia estar sendo indelicada e olhou de leve, encontrou seus olhos, deu um sorrisinho amarelo. Foi ao banheiro. É sempre bom arrumar os cabelos antes de sair, ninguém precisa saber o que estava fazendo. Voltou, sentou na cama. Ele também já se vestia. Pagaram a conta e foram embora. No carro o silêncio continuava, ela checava algumas coisas no celular.
- Então quer dizer que você não...
Olhou para o lado, como que assustada pela insistência. Ai meu Deus lá vem, de novo não!
- Não
- Mas nem chegou perto?
- Ah cheguei perto sim...
- Hehe menos mal.
É, cheguei perto sim. Mas dali para frente eu iria precisar de pelo menos mais uns 10 min e você meu bem, não iria aguentar. Tudo bem, não tem problema. Eu tenho os meus subterfúgios. Haha palavra engraçada e complicada para dizer que eu faço justiça com as próprias mãos.
- Tchau linda, a gente se vê...
Beijinho pudico, sem língua. Engraçado como são essas coisas. Mais tarde naquele dia, ela mandou uma mensagem. Não entendia o protocolo de esperar o cara ligar novamente. Alguém disse para ela que era bom fazer isso,para não parecer desesperada. Mas eu não estou desesperada ué, qual o problema? Mandou, contrariando todas as cartilhas, revistas e conversas de suas amigas. Foda-se, ninguém precisa saber.
Oi gata, tudo bem?
Tudo sim e com você? Adorei ontem :*
É, eu também... mas me diz uma coisa, você não... mesmo?
Haha não não, porque você insiste nisso?
Ah, sabe como é... a gente se esforça tanto... :(
Porra, se esforça tanto? Pensou. Não meu bem, você não se esforça tanto. Aliás, se ela tivesse a paciência iria ensinar uma ou duas coisas sobre línguas e dedos e quadris. Iria ensinar sobre sinais. Mas tinha preguiça, afinal, mais 2 encontros e eles não se veriam mais. Era mais ou menos esse o padrão. Era tudo muito bom, tudo ia muito bem mas como ela não tinha paciência de fingir um grand finale eles acabavam se sentindo acuados. Afinal, que feras feridas! Crentes de que conseguiam isso com todas as parceiras e justo ela, aquela desajustada, quiçá frígida ousava não encontrar o paraíso e as borboletas coloridas em seus braços. Mas como assim você não...? E ai tinha que explicar, afinal foda-se quaisquer outro aspecto da vida dela, o importante era saber o porquê ela não chegava lá. Explicar que, pois é, não chegava lá, nunca tinha chegado com ninguém a não ser ela mesma, sim, já haviam passado alguns e nenhum bravo guerreiro havia conseguido. Mas e por que ela continuava a fazer? Perguntavam uns. Ué, porque é bom. Exercita, libera endorfinas. Não entendiam, as vezes nem ela entendia.
Mais uma vezes eles se vêem. Dessa vez ele decide se esforçar, passar o máximo de tempo possível tentando. O problema é que nem sempre isso é tão afetivo. Sabe, se você perde o tempo da coisa não adianta continuar tentando, agora é esperar a próxima chance. A pior parte eram as explicações:
- Você estimula demais.
- Você deve ter muitos bloqueios mentais.
- Você não se entrega.
- Talvez você até chegue, mas você não percebe.
- Você fica tão noiada com isso, que não consegue.
Puta que pariu calem a boca! Não ela não estimulava demais, não ela não tinha bloqueios mentais. Estava cansada da mesma coisa, do mesmo drama. Olhava para o lado e pensava. Poxa, quem deveria estar triste era eu que estou aqui, sem ter perdido o fôlego, esperando pela próxima na esperança de ter um final melhor. Não o problema não estava com ela. Talvez um pouco, mas não da forma como tentavam colocar. Afinal, sozinha e sem ajuda de utensílios ela conseguia perfeitamente, qual era a diferença então? Foi aí que começou a ter medo. Será que precisava se apaixonar? Ou talvez tentar uma daquelas esquisitices indianas que duram horas? Ou quem sabe deveria estar jogando no outro time? Não sabia.
O jeito então, era continuar tentando. Uma hora tinha que chegar lá.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Stalking

“Existe toda uma loucura embutida em meus atos, essa coisa que muitos chamam de intensidade, fazer-sem-pensar, isso tudo para mim é transmitido em loucura. Não sou louca do modo pejorativo que  me chamariam, sou louca do elogio por mim merecido. Eu sigo seus passos assim como quem não quer nada. Vou investigando-os, anotando o que me convém em um caderninho preto que dorme debaixo do meu travesseiro. Vasculho seu lixo, leio suas cartas, aquelas que minha mente transtornada escreveu por semanas a fio. Vou ao seu restaurante predileto, peço o prato de sempre e finjo ser você por alguns instantes. Há algo de sórdido no jeito em que bebo meu conhaque, algo de louco em tudo feito por mim. Mas eu não me importo mesmo. Vou ao local em que você faz as compras e com um carrinho te sigo, como quem apenas está olhando os preços. Fico sentada em frente ao local do seu trabalho, lendo algo, esperando seus movimentos. Vejo até pela janela do seu quarto, quando tem companhia ou está irremediavelmente só. Não pense que é amor, é apenas obsessão, hobby, deixe-me apenas terminar com isso, deleitar nos momentos em que seus olhos encontram os meus e se perguntam se já não me viram anteriormente, encontrá-lo por um feliz acaso no seu bar predileto, coincidentemente pedindo o mesmo que você. Ah não se assuste, não farei mal algum, pelo menos não ao seu corpo. É seu aniversário e eu mando flores, as mesmas de sempre e sem cartão. Imaginas quem pode tê-las mandado? Eu não imaginaria jamais. Apesar disso, tenho vida e muito bem vivida. Das minhas horas vagas apenas uma é dedicada a atormentá-lo, engraçado como ela parece ser maior não é?”
Leu a carta e riu em alto e bom som. Nunca algo havia sido tão engraçado e ridículo ao mesmo tempo. Olhou ao longe e viu uma garota sentada em um banco, sabia ser a remetente da carta. Amassou-a e jogou no chão pois sabia estar sendo observado naquele momento. Garota mais estranha, achando que está me atormentando…

Madrugada

Sentou no banco. Sentiu o vento brincar com seus cabelos, não se importou com a bagunça. Respirou fundo e olhou o mar. Não viu o tempo passar e nem pôde precisar o momento em que deixou de estar sozinha. Não queria pensar na pessoa ao seu lado e procurava ignorar ao máximo a sua existência, até que esta foi tomando conta dela. Como sempre. Inevitavelmente, sem aviso, sem pudor, sem necessidade. Suspirou.
- Isso não é justo.
Silêncio. Decidiu então que era momento de falar tudo, queria explodir em palavras e contar todas as coisas de todos os anos e todas as dores. Abriu a boca. Fechou. O que falar? Não existia mais nada, as palavras fugiram, viraram sentimentos confusos. O mar ali, que não levava nada disso embora. O mar. Levantou-se, tirou a blusa, saiu correndo o mais rápido que pôde. Esbarrou em pessoas, cadeiras, nela mesma, sentiu a água molhando os pés, depois os joelhos, a cintura, o peito. Chorou o que podia e não podia. Viu-se misturar com o mar. Não se importou quando não viu mais volta. Doeu foi não ter o salvamento que esperava, mas enfim, essa história de que quem espera sempre alcança é balela mesmo. Engoliu água, engoliu a si mesma. Foi visitar as terras de Aiocá.
Mas vai ficar tudo bem, afinal. Isso eu prometo.

Volúpia

Olhou-se no espelho. Pensou consigo mesma: “que loucura”. Mas fazia tanto tempo que a música entrava na sua mente, dormindo, acordada, pensando, escrevendo. E com ela a coreografia, a roupa, a imagem e as vezes até a pessoa. Sentia-se encher de volúpia, desejou ser mais  bonita naquele momento, posuir uma beleza paralisante, intoxicante. Olhou mais uma vez para o espelho e não encontrou tudo isso, mas a sensação da música preenchia um pouco cada parte necessária. “Você vem?” Uma voz a acorda dos seus devaneios. “Céus, estamos pagando pela hora aqui” pensou. Seu estômago embrulhou, era apenas o 4º encontro. Mas não fazia mal, ninguém precisava saber e de forma cautelosa ela fez questão de deixar o celular dele junto a suas roupas. Sabe-se lá, não é?

Saiu, olhava para o chão. Ainda envergonhada, se perguntando mais uma vez o que a levou até este momento. Ignorou o homem deitado na cama, procurou pelo o som e coloco a música. Os primeiros acordes, seus braços se moviam lentos, envergonhados, ela olhava o nada. Nos primeiros versos compreendeu, a música a preencheu e ela começou a dançar. Seu corpo ondulava, ela deixava transparecer nudez de forma rápida, quase descuidada. Acariciava seu próprio corpo, ignorando qualquer presença. Olhou para ele. Sentiu-se devorada por alguns segundos. Foi andando devagar até a cama. Subiu nela e em pé continuou a dança. Embora tenha passado tanto tempo coreografando, não soube repetir os pasos que havia colocado na mente. Deixava-se levar e caminhando na cama, até se posicionar acima dos quadris de sua plateia deixou o robe cair. Ainda não estava nua. Aos poucos foi descendo até quase sentar no colo dele. Sorrio sem mostrar os dentes, tomou suas mãos nas suas e fê-lo sentir o próprio corpo. Aspirava seu perfurme e o acariciava com seus cabelos enquanto procurava ao máximo aproximar-se sem tocá-lo. Afastou, desceu da cama, teve a sensação de estar intoxicada. Mas calma, era só a música. Sorrio novamente. Apoiou a perna próxima a ele, somente para soltar a cinta-liga. Seus dedos descendo a meia, devagar, esquecida do mundo. Deu outra volta na cama e dessa vez, ao invéz de apoiar a perna, apenas deitou-se por cima dele, suspendendo as pernas e retirando a outra meia. Fez aquilo o mais devagar que pôde. Fazia questão de roçar suas costas no corpo dele, levantou-se e mais uma vez montou em sua plateia. Olhou-o nos olhos. Por alguma razão um poema veio a sua mente. Desnuda está sob a anelante labareda de minha vida e o meu desejo queima-a como uma brasa. Colocou as mãos dele para trás. Não queria ser tocada, continuou a dança, desabatoando aos poucos o seu corselet. Tomando distância para retirá-lo completamente e colocá-lo ao seu lado. Aproximou os quadris do rosto dele e retirou a calcinha, sempre esquivando de suas tentativas de toque. Deitou nua aos seus pés, olhando-o. Suspirou. A música já havia terminado e com ela o encanto. Fechou os olhos. Esperou pelas repetições cotidianas que há muito não mais intoxicavam-na.