Abraçou, suspirou. Sentiu seu peito se encher de
qualquer coisa que vinha evitando há tanto tempo. Lembrava da sua
regra, só diga isso quando faltarem as palavras, não como um meio
de conversa. Só diga isso quando seu peito se encher e então
transbordar para a garganta, inundar a boca e ser impossível conter.
É só então quando você deve dizer, sem medo. Acontece que quando
esse momento chegou, não pôde ser consumado. Cada vez que seu peito
se enchia, sua garganta transbordava e sua boca inundava era preciso
engolir. E que esforço, doía tanto. Tinha vontade de chorar cada
vez que isso acontecia. E aconteceram tantas vezes, e então quando
acontecia ela abraçava mais, apertava. Esse abraço era interpretado
como desejo, era bom porque então por alguns momentos poderia se
esquecer. Mas ainda estava lá, enchendo, transbordando, inundando.
Repetidamente, sem aviso, sem hora para ir embora. Pensou que iria
melhorar se fossem lá fora. Mas então o vento, as mãos que se
tocavam tímidas, tudo isso contribuía para a piora. Buscava fugir
pois não queria estragar o que aquilo era mas toda vez que voltavam
e havia o abraço e a calma e as palavras soltas, era preciso
engolir. E o que inundava de forma boa acabava se transformando em
lágrimas que mais uma vez precisavam ser contidas.
Finalmente não precisou mais se conter, e não
era porque finalmente poderia ter dito mas porque o tempo havia
acabado. Caminharam por uma rua escura e se despediram, para cada
passo que davam em direções opostas, iam olhando para trás,
procurando nas feições que se afastavam um pouquinho daquilo que
tinham vivido. Ao chegar em seu quarto, tudo aquilo que precisou
engolir finalmente transbordou. Chorou, chorou tanto que parecia
estar chorando porque alguém morrera. Era desesperador o efeito das
palavras não ditas, aquelas que enchiam o peito. Chorou como se uma
parte de si tivesse ido embora. Desespero.
Mas os dias passaram, e o efeito dessas palavras
não ditas foi se forticando, somatizando, se transformando em
procura de sensações fáceis, passageiras. Mas isso não se faz,
não é? Foi quando percebeu que o inevitável acontecera. Aquele
letreiro vermelho que deveria ser uma lembrança boa agora era um
fantasma, perseguindo por toda a cidade, podendo ser visto da sua
casa, da rua, nos seus sonhos. Quando passava perto virava o rosto.
Quando olhava para o horizonte, evitava encontrá-lo. Para onde quer
que fosse se não estivesse o letreiro, estaria a lembrança do
abraço, da vontade de dizer, da necessidade de conter.
Um dia, quem sabe. Aquilo poderia ser dito.
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