domingo, 26 de outubro de 2014

Letreiro vermelho


Abraçou, suspirou. Sentiu seu peito se encher de qualquer coisa que vinha evitando há tanto tempo. Lembrava da sua regra, só diga isso quando faltarem as palavras, não como um meio de conversa. Só diga isso quando seu peito se encher e então transbordar para a garganta, inundar a boca e ser impossível conter. É só então quando você deve dizer, sem medo. Acontece que quando esse momento chegou, não pôde ser consumado. Cada vez que seu peito se enchia, sua garganta transbordava e sua boca inundava era preciso engolir. E que esforço, doía tanto. Tinha vontade de chorar cada vez que isso acontecia. E aconteceram tantas vezes, e então quando acontecia ela abraçava mais, apertava. Esse abraço era interpretado como desejo, era bom porque então por alguns momentos poderia se esquecer. Mas ainda estava lá, enchendo, transbordando, inundando. Repetidamente, sem aviso, sem hora para ir embora. Pensou que iria melhorar se fossem lá fora. Mas então o vento, as mãos que se tocavam tímidas, tudo isso contribuía para a piora. Buscava fugir pois não queria estragar o que aquilo era mas toda vez que voltavam e havia o abraço e a calma e as palavras soltas, era preciso engolir. E o que inundava de forma boa acabava se transformando em lágrimas que mais uma vez precisavam ser contidas. 
Finalmente não precisou mais se conter, e não era porque finalmente poderia ter dito mas porque o tempo havia acabado. Caminharam por uma rua escura e se despediram, para cada passo que davam em direções opostas, iam olhando para trás, procurando nas feições que se afastavam um pouquinho daquilo que tinham vivido. Ao chegar em seu quarto, tudo aquilo que precisou engolir finalmente transbordou. Chorou, chorou tanto que parecia estar chorando porque alguém morrera. Era desesperador o efeito das palavras não ditas, aquelas que enchiam o peito. Chorou como se uma parte de si tivesse ido embora. Desespero.
Mas os dias passaram, e o efeito dessas palavras não ditas foi se forticando, somatizando, se transformando em procura de sensações fáceis, passageiras. Mas isso não se faz, não é? Foi quando percebeu que o inevitável acontecera. Aquele letreiro vermelho que deveria ser uma lembrança boa agora era um fantasma, perseguindo por toda a cidade, podendo ser visto da sua casa, da rua, nos seus sonhos. Quando passava perto virava o rosto. Quando olhava para o horizonte, evitava encontrá-lo. Para onde quer que fosse se não estivesse o letreiro, estaria a lembrança do abraço, da vontade de dizer, da necessidade de conter. 
Um dia, quem sabe. Aquilo poderia ser dito.

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