Deitou na cama. Olhou o teto, suas pernas estavam estendidas, apoiadas de forma a fazerem um ângulo de 90º com seu corpo. Alguns pedaços do seu coração estavam na sua mão direita, os outros espalhados por aí. Sentia o seu corpo flutuar, mas não da maneira gostosa. Era a maneira perdida de se flutuar, se perdendo, desaparecendo. Olhava o teto mas não via nada, apertava a mão direita. Suspirou. Não sabia muito bem o que fazer com aquela informação, não fazia sentido muita coisa aliás. Fechou os olhos e tentou ver o que não conseguia com eles abertos. Lembranças. Passavam todas correndo, se esbarrando, se misturando. Ela não conseguia captar a essência de nenhuma delas. Seu corpo ainda flutuava, se perdendo, indo embora. Era preciso ir embora afinal, deixar tudo aquilo mas ela ainda não conseguia. Qualquer coisa de louco ou masoquista a prendia. Talvez nem um, nem o outro, apenas a esperança. Mas qual esperança? Ficou se perguntando. Abriu os olhos e não encontrou muitas respostas, os pedaços ainda estavam em sua mão. Olhou seus pés, mexeu os dedos para ter certeza de que eles ainda serviam. Suspirou fundo, decidiu sentar. Olhou mais uma vez os pedaços em sua mão, se levantou e foi até a janela. Ao abrí-la viu o quarto ser invadido de sons, cores, cheiros. Entraram também lembranças pois daquela janela podia ver o letreiro vermelho e nós bem sabemos o que aquele letreiro significava. Pegou o conteúdo da sua mão e soprou. Viu os pedaços rodopiarem no ar, dançarem. Quem sabe estariam livres enfim. Sentiu um certo alívio. Dormiu para não acordar mais. Pelo menos não naquele corpo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário